Experiências imersivas sencientes



Estava aqui lendo o último report do Trendwatching e uma tendência em especial me chamou a atenção. Estou estudando neste momento do mestrado em gestão da economia criativa uma disciplina apaixonante: o design de interação e as estratégias de experiência de marca.


Somos seres sencientes por sermos capazes de sentir e perceber as coisas do mundo por meio dos sentidos. Nós construímos sentido a partir dos sentidos. Somos intensos corpos captadores de impressões e máquinas de interpretação de sensações.


No report, o Trendwatching conclui que há uma conjunção de fatores que vai ocorrer em 2019 para que o marketing de experiência siga sendo, cada vez mais, a grande estrela das estratégias de construção de marca e fidelidade. Os trendsetters listam como esses fatores:


• o big data confirmando-se como grande protagonista na geração de informação, de uma forma cada vez mais intensa e profunda, com toneladas de dados sobre os hábitos das pessoas que vem sendo cruzados com georreferenciamento e até posição corporal e gestual.

• o amadurecimento de formas cada vez mais múltiplas de inteligência artificial e a internet das coisas desenvolvendo objetos e itens cada vez mais smarts e onipresentes em nossas vidas em cada nano momento.

• o uso cada vez mais intensificado do reconhecimento facial;

• o uso sensores e nano robôs espalhados por todos os lados e cantos de nossa vida;

• o crescimento cada vez maior por pessoas demandando relevância e personalização para não cortar as marcas e empresas fora da vida delas.


Momentos vivenciais em ambientes que conhecem você de forma profunda, se adaptando e interagindo com seus anseios.

O resultado disso seriam espaços físicos que reconhecem e se adaptam para oferecer uma experiência única, exclusiva, remarkable e totalmente tailor-made para as nossas necessidades.


Como a experienced store da marca de beleza japonesa SK-II, que vem sendo considerada a beauty store do futuro. Com o sugestivo (e longo) nome de "SK-II Future X Smart Store", as lojas lançam mão do que há de mais avançado em inteligência artificial.


A jornada começa com uma experiência chamada "The Art of You": uma tela gigante que rastreia e lê todas as expressões faciais da pessoa, assim como hackeia o desenho e estrutura da cabeça, olhos e boca. A segunda etapa acontece em cabines individuais onde o sistema faz uma análise exclusiva da qualidade e especificidades da sua pele, o que a marca chama de "Magic Ring Skin Analysis". A partir disso, você pode ir para o Smart Beauty Bar e escolher entre as opções customizadas para o seu DNA e tipo de pele. Tudo para você adquirir uma pele perfeita. E tudo isso, claro, não termina na loja. A marca ainda oferece um app que auxilia no tratamento para que você siga sendo assessorado nos momentos de consumo no dia-a-dia.


Um dos aspectos que a marca destaca como diferenciais me chamou a atenção:


“Tecnologias emergentes como inteligência artificial e reconhecimento facial-biológico permite que desafiemos os padrões do varejo de modo a compartilharmos com as pessoas nossa experiência de marca com mais significado profundo. Nossas consumidoras podem experimentar nossos produtos e aprender sobre a sua pele no seu ritmo sem serem observadas, julgadas ou pressionadas".


Achei curioso a marca apresentar a assessoria digital e individualizada como uma forma de neutralizar o medo de julgamento e pressão que todos podemos vir a sentir em situações de consumo tão íntimas e pessoais como essa, no que diz respeito a produtos de beleza. É de fato um aspecto interessante. É como se essa experiência além de ser o estado da arte em termos de tecnologia desde o primeiro momento de análise até os produtos oferecidos, ainda oferecesse refúgios emocionais. Seria como dizermos que a tecnologia ao invés de tornar a experiência mais fria na verdade proporciona uma situação mais acolhedora e compreensiva. Não é louco pensar nisso sob essa perspectiva?


Os caras da marca ainda dizem que não estão trocando humanos por tecnologia. Mas sim que estariam suplementando os humanos com tecnologia como forma de oferecer uma experiência de consumo melhor e mais meaningful (repleta de significado).


Raul Santahelena é autor dos livros:


"Muito Além do Merchan: como enfrentar o desafio de envolver as novas gerações de consumidores" (Ed. Elsevier, 2012) LEIA AQUI


"Truthtelling: por marcas mais humanas, autênticas e verdadeiras" (Ed. Voo, 2018) LEIA AQUI


"Ou Soma Ou Some: empreenda com propósito elevado, significado profundo e lucro consciente" (em breve)


Professor de Branding Planning na Miami Ad School / ESPM.


Mestrando em Gestão da Economia Criativa na ESPM.


Gerente de Publicidade e Mídia na Petrobras.