As bolhas de conformidade social e como elas influenciam você



Você conhece o experimento de conformidade social realizado numa sala de espera de um médico?


Funciona mais ou menos assim: em uma sala de espera normal de um consultório médico são colocados vários atores contratados. Junto com eles há apenas uma pessoa comum, que não tem ideia do que está acontecendo.


Em determinado momento, toca um sinal sonoro e todos os atores se levantam. A pessoa comum fica sem entender aquilo e observa. A partir da terceira vez em que o sinal sonoro toca, a pessoa comum vai ficando mais incomodada. E então começa a insinuar que vai se levantar também. Com a sequência de sinais sonoros, ela não resiste e passa a se levantar junto com os atores toda vez que o sinal sonoro toca, mesmo que não haja nenhuma explicação lógica para tal comportamento.


Incrível, não?


Mas sabe o que é ainda mais curioso? Quando os atores começam a entrar na consulta, um a um, passando a ser substituídos por outras pessoas comuns, que não são atores contratados e que não sabem o que está acontecendo, esta começa a se comportar exatamente da mesma forma. Ao tocar o sinal sonoro, elas se levantam junto com os demais. Cria-se ali um protocolo social que passa a vigorar mesmo quando entre todas as pessoas da sala não há mais nenhum ator, apenas pessoas comuns.


Este é um experimento que demonstra na prática o senso de conformidade social operando. O cérebro humano nos enche de estímulos nos pressionando a não destoar do universo padrão à nossa volta. Não posso parecer divergente ou diferente do coletivo. Afinal, eles devem estar fazendo isso por alguma razão. E eu não quero ser colocado à parte disso.


É o sentimento de necessidade de pertencimento, de acolhimento, que pulsa dentro do homo sapiens, a espécie mais coletiva e social que existe. O simples desejo de pertencer a um contexto social faz com que a gente abra mão inclusive de nossas opiniões, convicções e individualidades.


Quando o nosso cérebro percebe que estamos em uma situação de não acolhimento e inserção social-coletiva — ou seja, quando nos sentimos outsiders — ele passa a investir a nossa energia mental em monitorar ameaças. E, assim, reserva poucos recursos para processos cognitivos mais elevados e nobres. É como se ele entrasse em estado de alerta. Um estado de alerta que aciona a nossa amígdala, nosso córtex cingulado anterior e nossa ínsula, todos conhecidos por seus papéis no processamento relacionado à ameaça e à dor.


Vou repetir de outra forma para ficar mais claro: a necessidade humana por pertencimento social não é uma mera questão de carência sentimental ou frescura. É uma necessidade biológica. Sem nos sentirmos parte de um meio social ou de um grupo, nosso cérebro trava e entra em estado de constante alerta, não conseguindo a dedicação ideal para produzir, assimilar conhecimento ou evoluir.


Quando alunos em uma faculdade ou escola não se sentem realmente como parte daquele núcleo social-coletivo, suas energias cognitivas que deveriam estar sendo empenhadas no aprendizado e no engajamento social estão focadas em escanear o ambiente e as barreiras daquele grupo, como a discriminação e estereotipização, só pra citar algumas.


A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann cunhou a teoria de comunicação conhecida como "Espiral do Silêncio", fenômeno de influência que contamina uma massa de pessoas a seguirem um determinado clima de opinião comum e dominante


Elisabeth estudou os bolsões de influência cruzada que compõem o que ela chamou de "clima de opinião". Esse fenômeno ocorre quando uma determinada linha de pensamento é superestimada e passa a ser defendida por uma parcela cada vez maior de uma população. Muitas pessoas, decididas ou não, com a mesma opinião ou não, passam a ser irresistivelmente influenciadas a concordarem com esta mesma linha de pensamento.


Consequentemente, outra linha de pensamento passa a ser subestimada, geralmente a antagônica, o contra-ponto. E as pessoas tendem então a afastar-se desta e até mesmo negá-la, ainda que tivessem uma tendência anterior a adotá-la ou concordar com ela.

Para chegar a tal conclusão, Noelle-Neumann utilizou alguns instrumentos para medir esse tal clima de opinião. Ela passou a medir a tendência das pessoas em defender um ponto-de-vista em público ou então optar por manter-se em silêncio quando era falado algo na direção contrária das crenças delas. Outro fator importante analisado foi a opinião sobre em quem os eleitores votam de verdade em comparação ou por influência da visão deles sobre quem eles acham que vai ganhar as eleições.


A partir dos achados deste estudo, a Elisabeth começou a elaborar e aprimorar a sua mais famosa teoria da comunicação: a espiral do silêncio.


A ideia central é que os indivíduos omitem a sua opinião quando esta é conflitante com a opinião dominante. E isso ocorre pelas mesmas razões que vimos juntos no início desse artigo: o medo de não ser aceito, de não se sentir pertencido a algum meio social-coletivo. O profundo medo do isolamento, da crítica ou da zombaria excludente e discriminatória. As pessoas analisam o ambiente ao seu redor, hackeiam o clima geral e opiniões das pessoas que fazem parte deste ambiente social, as transações entre percepções e visões que ali ocorrem e, ao identificar que pertencem à uma minoria de pensamento, preferem se resguardar para evitar impasses ou conflitos que podem excluí-los do meio social em que estão situados — ou sitiados.


O que nos leva a refletir que tudo no mundo gira em torno do pertencimento social que condiciona o nosso cérebro a trocar o aprendizado e a troca de conhecimentos e sentimentos por um clima de medo e apreensão constante.


Fontes de Referência:

The Psychology of Belonging (and why it matters)

Belonging starts in the brain

Vídeo "Conformidade Social - O Experimento"


Raul Santahelena é autor dos livros:

"Muito Além do Merchan: como enfrentar o desafio de envolver as novas gerações de consumidores" (Ed. Elsevier, 2012) LEIA AQUI


"Truthtelling: por marcas mais humanas, autênticas e verdadeiras" (Ed. Voo, 2018) LEIA AQUI


"Ou Soma Ou Some: empreenda com propósito elevado, significado profundo e lucro consciente" (em breve)


Professor de Branding Planning na Miami Ad School / ESPM.


Mestrando em Gestão da Economia Criativa na ESPM.


Gerente de Publicidade e Mídia na Petrobras.